VIVE AS LETRAS!

Magazine da Faculdade de Letras
da Universidade de Coimbra

N.º 18, 2.ª série, abril de 2026

EDITORIAL

Albano Figueiredo

1. A FLUC celebra em 2026 os seus 115 anos de existência. Assinalaremos o acontecimento com mais um DIA ABERTO (que será a 5.ª edição), este ano em 21 de abril. A Direção, os Departamentos, as Secções, os Cursos, o Centro de Línguas e o NEFLUC desenvolverão atividades várias que, como vem sendo hábito, ao longo do dia projetarão o trabalho da FLUC no espaço da Universidade de Coimbra e, sobretudo, na cidade e na região. Ao fazê-lo – relembro – estaremos a projetar as Humanidades, as Artes e as Ciências Sociais, áreas predominantes em que trabalhamos no seio da UC.

2. Logo depois, maio, junho e julho voltarão a ser meses de forte atividade, com iniciativas diversas, como, entre muitas outras, (i) a sessão comemorativa do Dia da Europa, em 8 de maio, (ii) a habitual sessão de encerramento do ano letivo, que terá lugar na manhã do dia 14 de maio, (iii) a 6.ª edição das “Jornadas de Iniciação Científica”, em 2 de junho, (iv) a realização de mais uma edição do “Curso de Férias de Língua e Cultura Portuguesas para Estrangeiros”, entre 22 de junho e 24 de julho, em cujo âmbito se procederá à apresentação do volume Desta língua vê-se o mundo, comemorativo dos 100 anos do curso, (v) a 3.ª edição de “Dias do Japão”, entre 23 e 25 de junho, e (vi) vários congressos e seminários científicos internacionais, organizados por centros de investigação, docentes, investigadores/as e estudantes. Assim continuará a FLUC a reforçar a sua forte presença científica, académica e cultural no espaço público nacional e internacional.

3. Continuaremos a manter neste período a mesma atenção de sempre ao trabalho de docentes, investigadores/as e estudantes. A reforma da oferta formativa de 2.º e 3.º ciclos e o lançamento de novos concursos para recrutamento de docentes e funcionários/as não docentes continuam a ser desígnios que se encontram em “velocidade de cruzeiro”, bem como a revisão e atualização de regulamentação diversa, com destaque para a adequação dos Estatutos da Faculdade aos novos Estatutos da UC e para o Regulamento de Avaliação de Conhecimentos.

4. E porque a FLUC é sempre movimento, convido-o/a a ler o n.º 18 desta 2.ª série do Magazine Vive as Letras!, publicação trimestral que, como sempre, pretende dar a conhecer pessoas, projetos e espaços da nossa Escola.

Um excelente trabalho para todos/as!

CONVERSAS NA BIBLIOTECA

Paulo Vila Maior

Coser a Poesia à Política: um Olhar sobre o Futuro Europeu

Formado em Economia e Estudos Europeus, Paulo Vila Maior percorre uma ponte rara: aquela que une as letras aos números para decifrar o presente e o futuro da União Europeia. Nesta conversa, o docente recorda-nos que a cidadania europeia não é um conceito abstrato, mas um exercício vivo que exige o conhecimento profundo das nossas instituições.

"Talvez os cidadãos portugueses não tenham a noção de que grande parte das decisões políticas que interferem com o seu bem-estar presente e futuro não são tomadas pelo governo português, pela Assembleia da República, mas sim por instituições da União Europeia".

Nesta partilha, o docente faz quatro sugestões de leitura que tentam coser a poesia à política, e, dessa forma, permitiram a Paulo Vila Maior harmonizar a vida pessoal e a vida académica. Em conversa, começa por recomendar o autor Menasse, que lança um desafio que é, acima de tudo, um imperativo ético: a urgência de reumanizar a economia.

Ao criticar a 'dança dos egoísmos nacionais' que hoje, na sua opinião, limitam a autonomia europeia, Paulo Vila Maior repensa as relações internacionais e critica a sub-representação da UE nos media nacionais.

GENTE DAS LETRAS

Manuela Santos

Manuela Santos celebra este ano quatro décadas de uma vida ligada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Esta é a casa que a viu crescer: primeiro como estudante de Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) e, mais tarde, como técnica superior do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação (DFCI).

A sua história na FLUC começou em 1986, culminando na licenciatura em 1996. Foram dez anos marcantes: "Fiz muita coisa — tirei um curso de secretariado, estagiei e fui mãe pela primeira vez. A FLUC assistiu a todo este meu percurso", recorda.

Hoje, no 6.º piso da Faculdade, Manuela é muito mais do que o braço direito da Direção do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação. Embora assegure com mestria a gestão da agenda, a preparação de reuniões e o rigor das atas e despachos, assume-se como um verdadeiro ponto de encontro entre gerações. "Gosto muito do que faço e continuo a aprender todos os dias, inclusive com os diretores com quem trabalho e com quem sempre estabeleci uma relação de grande amizade", confessa.

Das memórias que guarda com mais carinho destaca o tempo no Instituto de Estudos Jornalísticos: "Tinha um sofá vermelho no meu gabinete que recebia muitos alunos à procura de alguém com quem desabafar". Embora lamente o crescente distanciamento dos jovens, continua a ver na FLUC uma "oportunidade constante de evolução".

Uma das principais competências que adquiriu nos últimos anos foi a autonomia. "Sei que domino o que faço", afirma convicta. Para Manuela Santos, ser secretária de direção numa universidade exige confiança e responsabilidade, mas, acima de tudo, um conhecimento profundo da casa, "das suas rotinas à sua identidade".

Ao fim de 40 anos, é a dimensão humana que mais a emociona:

"Aprendi que cada processo tem pessoas por detrás — docentes, investigadores, estudantes — todos com expectativas próprias. Saber ouvir, mediar e acalmar é parte essencial da minha função."

Quando as luzes da Faculdade se apagam, o trajeto de Manuela Santos de volta a casa é claro: a companhia da mãe é a primeira paragem, seguindo-se o encontro com as filhas e os netos, que descreve como "uma fonte inesgotável de alegria".

Fora do contexto académico, cultiva o bem-estar através do desporto, da culinária e do artesanato. É sobretudo na escrita que encontra o seu refúgio pessoal: no blogue "Uma Vida com Sentido", partilha reflexões e aprendizagens, servindo de espelho à curiosidade e ao entusiasmo que, quatro décadas depois, continuam a definir o seu percurso na FLUC.

VIDAS DE ESTUDANTE

Repúblicas de Estudantes

As Repúblicas de Coimbra são o refúgio de muitos estudantes da FLUC que, ao cruzar o umbral da porta, trocam o rigor das salas de aula por uma "segunda vida", em que a cultura, o debate e a história ditam as regras. Património vivo da Academia, estas casas mantêm a tradição da porta sempre aberta a quem venha por bem.

A vida coletiva pulsa na discussão política, na reivindicação e na celebração das artes. Nas paredes, a poesia e a música cumprimentam quem entra, testemunhando um tempo que corre mais lento, mas onde a vida é vivida com uma intensidade que o calendário dificilmente acompanha. Nestas casas, um ano equivale a cem: os centenários celebram-se em convívios onde gerações se cruzam, e onde a memória dos antigos residentes encontra conforto nos rostos dos jovens que hoje habitam os mesmos espaços. É um reencontro de tempos, onde quem partiu há muito se reconhece na energia de quem agora ali vive.

Pilar essencial no combate à ditadura, as Repúblicas foram o porto de abrigo para grandes vultos da cultura de intervenção, como José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Hoje, visitar estes espaços é mergulhar na memória viva da Revolução e na identidade estudantil conimbricense. Quem nelas habita continua a questionar o mundo, complementando o percurso académico com uma consciência cívica e cultural que as distingue de qualquer outro lugar.

É este o testemunho de Rodrigo Bartolomeu e Rita Veloso, estudantes de Letras e repúblicos, que nos contam como esta experiência transformadora tem enriquecido não só o seu percurso académico, mas a sua própria visão do mundo.

"As repúblicas são uma árvore e cada casa é uma ramificação diferente. Estamos sempre em contacto e cruzamos as mais-valias uns dos outros".
Rodrigo Bartolomeu

"Nas Repúblicas, tudo motiva a discussão e o debate filosófico".

Rodrigo Bartolomeu, da República dos Galifões, só precisa de subir a rua para chegar à Faculdade de Letras, onde estuda Filosofia. Quando chegou a Coimbra fascinou-se pela vida de repúblico: "Aqui em casa sempre se promoveu muito o debate político, filosófico, qualquer coisa serve para debater, uma colher que caiu ao chão é motivo para iniciarmos um debate político, se for preciso. E isso, como estudante de Letras, entusiasmou-me muito".

Assim que se mudou para junto dos Galifões, percebeu como ia beneficiar de pertencer àquela casa: "Não só o facto de ser muito mais barato, comparado com o resto do mercado aqui em Coimbra, mas por exigir que se aprenda a mudar uma máquina da roupa e a fazer comida para muita gente. Aprende-se muito a nível pessoal". Além disso, acredita que também amadureceu como estudante: "O facto de estudar na FLUC é um complemento à casa, e vice-versa. As Repúblicas são um polo cultural, que exige que te mantenhas ativo".

Além das habituais sessões de conversas, reuniões e participações em Assembleias Magnas da Associação Académica de Coimbra, a República dos Galifões dinamiza workshops, jogos desportivos, concursos de curtas-metragens e espetáculos de stand-up comedy. A vida cultural é intensa, sempre em contacto com as outras casas, e não nega entrada a ninguém!

"Entra amigo, entra em paz!"

Para Rita Veloso, a entrada na República do Rás-Teparta foi a descoberta de uma "família" e de uma forma de habitar que vai muito além da simples partilha do dia-a-dia. A casa onde vive é a resposta à necessidade humana de comunidade: "Passar por Coimbra e não vir a uma República é perder um pedaço de História e perder uma comunidade sempre disponível para nos receber."

Atual presidente da Associação da Real República Rás-Teparta e aluna de História na FLUC, Rita acredita que a sua experiência como república dialoga com a sua formação académica. Descreve o espaço onde nos sentamos, a conversar, como um desafio para a memória e a discussão, ferramentas que a distinguem na sala de aula. "Esta é uma casa que promove ciclos de cinema, rodas de conversa e sessões que procuram trazer para cima da mesa temas como a praxe, o racismo e outras dinâmicas de poder que queremos questionar".

Além do conforto, a gestão da casa oferece uma preparação prática única: "Ganha-se um novo sentido de responsabilidade; aprendi a organizar eventos e discussões, somos nós que gerimos todas as contas da casa, algo que num apartamento partilhado não acontece. Tornamo-nos, de certa forma, mais preparados e autónomos nas Repúblicas - tanto para a vida adulta, como mesmo para o mercado de trabalho."

A tradição da "porta aberta" é um dos pontos fundamentais que Rita procura desmistificar, lembrando o papel social histórico das casas em alimentar estudantes e residentes locais em dificuldades. Hoje, a sede de convivência continua a ser o ADN da casa: "Quem serve 11 pessoas, serve mais uma ou duas. Os estudantes hoje estão desconectados, mas queremos que saibam que podem simplesmente bater à porta e pedir almoço, ou sentarem-se para conversar. E com eles tragam um amigo também!".

HOJE INVESTIGO EU

Cristina Martins

Communikite: como comunicar em situações de emergência humanitária

Abrimos a secção “Hoje investigo eu” com uma novidade: a rubrica “Letras com Assinatura”, já publicada no canal de YouTube da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, passa agora a integrar também o Magazine Vive as Letras!.

Em cerca de cinco minutos, docentes e investigadores apresentam os projetos que assinam — o que estudam, que avanços têm alcançado e de que forma o seu trabalho contribui para as comunidades.

Para a estreia, Cristina Martins, professora de Linguística Aplicada na FLUC, dá-nos a conhecer o projeto Communikite — Communicative Needs in a First-aid Kit for Humanitarian Emergency Situations, uma iniciativa centrada nas necessidades comunicativas em contextos de emergência humanitária.

Vamos ouvi-la:

MUNDIVISÕES

O valor da estética e a arte como produto da injustiça: uma reflexão inovadora por Dominic McIver Lopes

O apelido não engana: Dominic McIver Lopes tem raízes em Goa e em Inglaterra, mas é no Canadá, em Toronto, que se sente em casa. O filósofo e pedagogo chegou a Coimbra em dezembro, ao abrigo de uma Bolsa Gulbenkian para Professores Visitantes nas Humanidades, tendo permanecido até fevereiro. Foi acolhido pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (CECH), onde aprofundou a sua investigação sobre Aesthetic Value e participou em diversas palestras e debates, mantendo um contacto próximo com a comunidade académica.

Segundo o docente, a tese em que tem vindo a trabalhar articula diferentes perspetivas da arte, da filosofia e da sociologia. O seu foco é o valor estético: questioná-lo, problematizar o seu uso e confrontá-lo com as mensagens que transmite sobre a sociedade que nos rodeia. Para Dominic Lopes — ou Dom, como prefere ser tratado — é essencial reconhecer que diferentes perceções de valor estético podem coexistir sem que isso implique conflito.

Apesar de reconhecer que muitas das suas questões ainda estão por responder, acredita que o futuro da arte pode ser promissor, desde que se compreendam plenamente as suas potencialidades. O mesmo se aplica à integração de ferramentas de inteligência artificial na produção artística: o trabalho do artista não é substituído se soubermos identificar onde reside o valor da sua criação e utilizarmos essas ferramentas para colmatar limitações específicas, e não para o substituir.

Em conversa com a FLUC, Dominic Lopes revelou que, terminada a jornada em Coimbra, seguirá para França e regressará depois ao Canadá. O trabalho desenvolvido no CECH será, entretanto, sintetizado e publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra.

No entanto, para o filósofo, a melhor parte de viajar entre universidades e dedicar-se aos temas que o desafiam é poder fazê-lo na companhia do seu amigo de quatro patas: o Marco.

MARCAS DAS LETRAS

Madalena Santos

Madalena iniciou o seu percurso na FLUC em 2017, na licenciatura em História. Contudo, a experiência no menor em Estudos Europeus fê-la perceber que aquela não era a sua área de eleição. Rapidamente alterou o seu rumo académico, e prosseguiu novos caminhos, fascinada pelo ambiente internacional, pela mobilidade Erasmus e pelas dinâmicas políticas da União Europeia.

Assim, decidiu transitar para a licenciatura e, posteriormente, para o mestrado em Estudos Europeus. Este último revelou-se um desafio determinante, especialmente pela dinâmica de debates semanais em inglês que, juntamente com a convivência com alunos estrangeiros, consolidou a sua capacidade de argumentação e visão global.

Paralelamente ao sucesso académico, o associativismo foi o grande motor do seu desenvolvimento pessoal na FLUC. Com uma presença muito ativa na vida da Faculdade, integrou o Núcleo de Estudantes logo no segundo ano, chegando a presidi-lo no seu último ano de estudante. No NEFLUC, liderou projetos "ambiciosos e fora da caixa", uma experiência que descreve como crucial para o desenvolvimento de competências sociais e profissionais. "A responsabilidade de comunicar com a direção e outras entidades, aliada à gestão de equipas, permitiu-me desenvolver uma autonomia e uma maturidade nas relações interpessoais que hoje são fundamentais para o meu dia-a-dia de trabalho", explica.

Pelo meio de uma vida académica intensa, as memórias mais marcantes são as que revelam o lado humano da FLUC. Entre as reuniões de Núcleo e a organização de eventos, destaca episódios de espontaneidade, como "o dia em que o Sr. Jorge — um estimado funcionário da casa — se juntou aos estudantes no Teatro Paulo Quintela para cantar e dançar, transformando um momento de trabalho numa memória de pura alegria", lembra, rindo.

Para a nossa diplomada, a FLUC foi sempre este ponto de encontro onde as relações de amizade e a entreajuda se sobrepuseram à mera rotina de estudo. Atualmente, após um período de voluntariado na Polónia com crianças em condições vulneráveis, a sua carreira foca-se na gestão de projetos internacionais em Coimbra, onde coordena a vinda de jovens europeus para estágios em Portugal:"É um trabalho de grande responsabilidade pedagógica e logística que reflete diretamente as bases que construí na Faculdade".

O olhar de Madalena é o de quem aproveitou cada oportunidade. A sua experiência incentiva-a a deixar uma mensagem clara aos futuros e às futuras estudantes da Faculdade de Letras:

"O Ensino Superior é uma experiência total. Entre as aulas, as atividades extraletivas e a vida social, o segredo está em viver tudo intensamente. Dormir fica para depois", brinca.

PHOTOMATON 

  • Apresentação do livro em Homenagem ao Professor Lúcio Cunha
  • Apresentação do n.º 11 da revista da Faculdade de Letras Biblos, com o tema "Liberdade"
  • Lançamento do n.º 64 da revista Conimbriga
  • Universidade de Inverno
  • Colóquio "Liberalismo: Metamorfoses de um conceito-chave da Filosofia Política"
  • Workshop "Flacofolio: Micro-Essay, Counter-Narrative, and Image", com Leonard Schwartz
  • "Work in Progress: 3rd Postgraduate Workshop in ELT"
  • Conferência "Fenomologia do "Pertencimento" por Renaud Barbaras
  • Simpósio "Challenging Literary and Cultural Practices, Now: Contemporary Approaches to the Humanities"
  • Visita do Colégio Vasco da Gama de Sintra
  • Visita da Escola Secundária de Peniche
  • Exposição “Beleza do Saber, Felicidade no Estudo. Maria Helena da Rocha Pereira: vida e obra”

Vive as Letras! é uma publicação trimestral

Próximo número: julho de 2026

Produção:
Gabinete de Comunicação e Imagem

Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra ©GCI, 2026

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